Entradas categorizadas em ‘Música’
O Breve Século XX, como foi chamado pelo historiador Eric Hobsbawm, foi certamente a época da aceleração do tempo, onde as coisas tomam um sentido cada vez mais imediato e com mudanças cada vez mais rápidas e intensas no cotidiano.
Algumas dessas mudanças podem ser sentidas nas nossas vidas aqui e agora, enquanto escrevo no teclado do computador. Posso lembrar sem nenhuma dificuldade dos tempos em que aprendi datilografia, e tinha que escrever com rapidez e eficiência nas duras teclas da máquina de escrever. A cada erro, arrancava o papel e escrevia tudo de novo. Nunca tinha ouvido falar da tecla delete.
As mudanças podem ser verificadas ainda mais profundas quando comparamos lembranças de algumas gerações. Sempre lembro da minha mãe contando da época em que não tinha televisão e ela tinha que assistir os programas feito papagaio de pirata na casa do vizinho. Isso ainda na década de 50/60. O aparelho de TV era caro demais na época, assim como qualquer nova mania tecnológica o é hoje em dia, até não ser mais novidade, tendo então o preço barateado. Mas minha mãe, certamente já tinha um entretenimento muito interessante que era o rádio, e que sua mãe (minha avó) com certeza nem sempre teve. Imaginem como deveria ser a vida sem nem mesmo um radiozinho pra alegrar as horas vagas…
No outro dia estava lendo um texto e me deparei com um relato de uma ouvinte de rádio que mandou uma carta para a revista Carioca, publicada em 03 de outubro de 1936, sugerindo que entre os problemas que mantinham o rádio brasileiro em um estágio ainda embrionário estava o dos pesados impostos que incidiam sobre os aparelhos, que eram importados, tornando sua aquisição somente possível para as classes mais abastadas. Restava aos “menos abastados apenas o martírio de namorá-los nas vitrines dos estabelecimentos”. A leitora-ouvinte afirmava que “onde quer que funcione um rádio a aglomeração de ouvintes é matemática” e terminava sua carta apresentando-se como uma ouvinte que, “ainda não possuindo um rádio, contenta-se em ouvir o do vizinho mas sempre na doce esperança de um dia possuir o seu”.
Pois é, crianças, se o século XX foi breve, como afirma Hobsbawm, o século XXI está sendo um flash, quando a gente pensa que vai ser, já foi…
Categorias: História · Lembranças · Música
“A gente precisava de um samba para movimentar os braços para a frente e para trás. A gente precisava de um samba para sambar”, disse Ismael Silva. O samba até então era muito próximo do maxixe, tinha mais a ver com a dança de salão, pra dançar a dois, estava muito longe de uma música para desfiles pelas ruas. Essa transformação musical passava pelo aperfeiçoamento dos instrumentos de percussão: nasciam o surdo e o tamborim.
A partir dessas mudanças surgia a primeira escola de samba do Brasil, a DEIXA FALAR, em 1928, no bairro do Estácio.
Em 1930 morreu o Sinhô, o maior representante daquele samba “antigo”, amaxixado, do início do século, deixando uma avenida aberta para o “novo” samba em evolução. Mas uma preocupação se fazia presente para os novos sambistas: evoluir sem renegar as raízes. Aconteceu então que desde o primeiro desfile da Deixa Falar, Ismael Silva exigiu que se formasse uma “ala das baianas”, visando impedir que se esqueçam as origens afro-baianas do samba.
Vou ver se escrevo mais algumas histórias do samba por aqui nos próximos dias.
Categorias: História · Música
O jornal O Globo tem uma coluninha do segundo caderno que sempre traz uma notícia estampada nas páginas do jornal há exatos 50 anos. Faz pouquíssimo tempo (07 / 11) saiu uma sobre um certo ritmo que estava aparecendo em 1956:
“POLÍCIA PRONTA PARA O ROCK AND ROLL (O Globo, em 07/11/1956)
Telegramas de Londres, Paris, Lisboa e outras grandes capitais nos dão conta da estranha acolhida que vêm merecendo por parte do público as músicas que caracterizam o novo ritmo originário dos Estados Unidos, o rock-and-roll. A música, segundo os telegramas, parece endoidecer os jovens, que se atiram às mais grotescas extravagâncias ao som da cadência alucinante. Seu lançamento coincide, sempre, com a exibição do filme ‘Rock-around-the-clock’, e as sessões cinematográficas têm terminado geralmente em baderna, com os espectadores depredando as salas de projeção e promovendo depois, na rua, autênticos shows de dança bamboleante e frenética.
No Brasil, onde a música já foi lançada por diversas emissoras, não parece ter transformado assim o espírito dos adolescentes. Há, no entanto, ao que se noticia, uma ameaça: um grupo de playboys e teenagers cariocas estaria planejando uma demonstração de conseqüências imprevisíveis. É claro que seria uma coisa puramente artificial, se preparada. Pelo seu caráter de evidente demonstração de desprezo aos bons costumes e pela perturbação que poderá causar à ordem pública, essa possibilidade já alertou as nossas autoridades, conforme ouvimos do delegado substituto de Costumes e Diversões, Sr. Clértan Arantes, que nos informou haver tomado conhecimento da ameaça, tendo determinado que se exerça uma vigilância especial com relação ao assunto.
— Eu aconselharia aos pais dos jovens que se têm deixado transtornar pela música em questão a levá-los ao médico psiquiatra, pois alguma coisa está errada em suas mentes. No que diz respeito ao cumprimento da Lei, no entanto, é ponto pacífico: a ordem será mantida — disse o delegado.”
Categorias: História · Música · jornais
Em novembro de 1968, no auge do psicodelismo dessa década que não acabou, foi lançado o disco The Beatles, mais conhecido como Álbum Branco. O grupo vinha de um álbum enigmático, o conceitual Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, com um projeto gráfico absolutamente pscicodélico, todo colorido, cheio de mensagens ocultas, aquelas coisas todas. Havia muita especulação acerca de como seria a próxima capa de um disco dos Beatles, e mais uma vez inovando eles lançaram um LP duplo com a capa totalmente branca, apenas com o nome do grupo escrito também em letras brancas, com a leitura possibilitada pelo alto relevo.

O disco foi gravado num período em que o relacionamento dos integrantes já estava se desgastando bastante, com muitas crises, como a que afastou das gravações o baterista Ringo Starr. Na música Back in The USSR, por exemplo, a bateria ficou a cargo de Paul MacCartney, auxiliado por John Lennon e George Harrison. Foi necessário um telefonema de Paul para Ringo, insistindo pelo seu retorno, lembrando como ele era indispensável para a banda, essas coisas.
O Disco conta com duas músicas que para mim merecem um destaque especial. A primeira é Happiness is a warm gun, um desabafo abolutamente transloucado de Lennon contra toda uma cultura de valorização da violência quevigorava no mundo afora, mas que era capitaneada pelo belicismo dos EUA.
A segunda música que quero ressaltar é um dos primeiros registros de Heavy Metal do mundo: Helter Skelter. A música é tão pesada que no final dá pra escutar um grito de Ringo Starr: “I’ve got blisters on my fingers!” (estou com bolhas nos dedos). Incrível perceber como a música se parece com o som do Led Zeppelin, banda que só foi lançar seu primeiro disco no ano seguinte ao lançamento do Álbum Branco.

Obs: a letra e o áudio das duas músicas podem ser conferidos no meu multiply.
Categorias: Música
Na última sexta-feira fui no Tim Festival, mas claro que na seção dos pobres, que pagaram só 10 reais em vez de 150, portanto só dava pra escutar o som dos grupos tocando. Mas a atração principal para os primos pobres foi o DJ Maurício Valladares, que toda terça-feira comanda o roNca roNca na Oi Fm. Já falei dele por aqui.
Antigamente o evento se chamava Free Jazz Festival, e eu nunca fui porque sempre foi muito caro, mas agora sim, continua muito caro. Mas como ando muito bem acessorado por Joelma, descobri que tinha esta espécie de ingresso popular.
Aí à esquerda estão alguns registros.
Categorias: Música
Rogério Duprat morreu. Considerado por muitos o George Martin brasileiro, o maestro vanguardista esteve envolvido até a alma com o movimento tropicalista.
Depois do disco-manifesto Tropicália ou Panis Et Circenses ele trabalhou durante um bom tempo com o grupo Os Mutantes.
Conheci os Mutantes em 1989, no programa Ronca Tripa, do Maurício Valladares, hoje na Oi fm, mas que na época apresentava seu programa na extinta rádio Panorama. Desde sempre ouvia falar dessa lendária banda, mas não conhecia. Quando escutei no programa do MauVal fui correndo comprar um disco, pra conhecer melhor. Me lembro bem. Comprei o Tudo Foi Feito Pelo Sol, que tinha sido lançado em 1974, já sem a Rita Lee nem o Arnaldo Baptista, mas que ainda mantinha bastante do espírito mutante.
Foi como um efeito dominó. Fui comprando um atrás do outro até formar a coleção completa. Só então entendi como podiam existir bandas fazendo um tipo de som que eu gostava tanto, como Titãs, DeFalla, Patife Band e Premeditando o Breque. Todos com claras influências do grupo paulista dos anos 60.
Hoje os Mutantes voltaram à ativa. Sem a Rita Lee, que já declarou que parecem uns velhinhos angariando uns trocadinhos pra pagarem o geriatra. Mas tá valendo. Quando tocarem no Noites Cariocas, vou estar lá com certeza. Sabe aqueles momentos que não podemos perder, são históricos, essas coisas?
O disco Tropicália só fui conhecer na era do CD, pois o vinil era raríssimo.
Viva o Rogério Duprat, que contribuiu enormemente para que aquela viagem alucinada das experimentações sonoras fosse possível.

E viva também o George Martin, que contribuiu enormemente para que aquela outra viagem alucinada das experimentações sonoras fosse possível.
Categorias: Música
Há algum tempo diria que andei revirando uns papéis antigos, mas nos tempos atuais eu tenho que reconhecer que andei revirando uns posts antigos.
Encontrei um texto que escrevi no fotolog há exato um ano atrás.
Muito bacana. Agora é meu passatempo predileto. E não é que eu fui um cronista dos acontecimentos da vida cotidiana nos últimos anos? Verdadeiras pérolas para me situar no tempo passado ou mesmo como catalogação para visitas futuras de um historiador que sempre sofreu horrores com uma rinite alérgica que sempre me deixou meio afastado de papéis empoeirados.
Lá vai o texto:
Amanhã é o dia D
Eu sei que o referendo não mudará em nada os índices de criminalidade e muito menos diminuir os efeitos do crime organizado, mas fico feliz de votar SIM ao estatuto do desarmamento e deixar marcada a minha clara posição contra essa cultura da violência, e como bem disse Zuenir Ventura, onde o fetiche maior é o revólver.
Prefiro usar as palavras de um grande pacifista que foi vítima das balas de um revolver de um suposto “homem de bem”, que num surto psicótico resolveu que seria interessante tirar a vida de um homem.
“Give peace a chance!”, dizia essa vítima desse ingênuo fetiche, enquanto ainda vivia e bradava contra a violência e contra a inútil Guerra do Vietnã, na década de 60, nas músicas de seu grupo de rock: BEATLES.
Mais uma vez:
“Give peace a chance!” (John Lennon)
Obs: escrito em 22/10/2005.
Categorias: Música · Nesta mesma data
Desde a adolescência, nos anos 80, quando adquiri o hábito da leitura – livros, jornais e revistas, principalmente assuntos relacionados à música, uma grande paixão – sempre observei bons jornalistas e acompanhava seus artigos sobre as bandas, filmes e tudo mais que me interessava ler.
O primeiro que me despertou atenção especial foi Tom Leão, do Globo, que sempre escrevia exatamente o que eu pensava sobre música em geral. Lançou, junto com Carlos Albuquerque, o Rio Fanzine, onde continua escrevendo. Depois descobri que ele era “afilhado” de Ana Maria Bahiana, jornalista fabulosa que admiro e respeito muito até hoje, também do Globo, que escreve sempre sobre cinema e recentemente lançou o livro Almanaque dos Anos 70.
Já no iniciozinho dos anos 90 surgiu o Zeca Camargo, na então iniciante MTV brasileira. Mesmo depois que foi contratado pela Rede Globo, sempre continuou dando um jeito de fazer algumas matérias interessantes.
Tudo isso pra dizer que hoje vi uma entrevista sua na TV Câmara, realizada em Brasília, pois está lançando um livro (De A-Ha a U2) com os bastidores das várias entrevistas que já fez com astros da música do mundo inteiro. Muito Inteligente, deu dicas para uma platéia cheia de universitários – muitos estudantes de jornalismo – e contou um pouco de seus medos e angústias de início de carreira, de como aprendeu a separar o fã do profissional, pois já estragou uma entrevista com Michael Stipe, vocalista do R.E.M. por esse motivo, e outras coisas mais.
Boa sugestão para leitura.
Assim que tiver tempo ($) vou ler.
Categorias: Livros · Música · TV · jornais

Herbert Vianna: “Certa vez, saí com uma namorada para jantar. Sentei na moto, ela começou a conversar mas pedi que não falasse mais nada porque estava vindo a melodia e a letra na cabeça. Quando chegamos ao restaurante, em Ipanema, o garçom logo veio para anotar o pedido. “Papel e caneta, rápido, por favor foi o que pedi”, lembra o compositor.
Naqueles dez minutos de moto entre a minha casa e o restaurante, a letra apareceu inteira”, conta Herbert. A música emplacou. Era “Lanterna dos Afogados”.
Texto: Revista Vinho Magazine
Taí a letra:
Lanterna Dos Afogados
( Herbert Vianna )
Quando tá escuro
E ninguém te ouve
Quando chega a noite
E você pode chorar
Há uma luz no túnel
Dos desesperados
Há um cais de porto
Pra quem precisa chegar
Eu tô na Lanterna dos Afogados
Eu tô te esperando
Vê se não vai demorar
Uma noite longa
Pra uma vida curta
Mas já não me importa
Basta poder te ajudar
E são tantas marcas
Que já fazem parte
Do que eu sou agora
Mas ainda sei me virar
Eu tô na Lanterna dos Afogados
Eu tô te esperando
Vê se não vai demorar
Lendo essa história do Herbet Vianna, lembrei de mim na época que estava estudando no terceiro ano do ensino médio, na época segundo grau (1991). Morava em São Gonçalo e estudava em Niterói. Portanto, passava quase uma hora no ônibus. Como sempre gostei de escrever coisas (eu tinha um grupo de rock com amigos e gostava de compor as músicas), foi no ônibus que “surgiu” uma das músicas. Foi assim, uma espécie de pipi-poesia, daqueles que não se pode controlar. Fiquei decorando os versos enquanto o ônibus não chegava. Quem sabe um dia tomo coragem e coloco algumas das minhas por aqui…
Categorias: Música

Os Paralamas do Sucesso, um dos grupos dos anos 80 que eu mais admiro, se lançaram no mercado fonográfico em 1983 com o LP “Cinema Mudo”. Mas foi só no terceiro disco (“Selvagem”, de 1986) que eles começaram a agregar novos ritmos e temáticas à até então preponderante influência do grupo inglês THE POLICE que se mostrava presente nos dois discos anteriores. A ‘música de trabalho’ deste terceiro disco foi ALAGADOS, composição de Herbert Vianna que misturava Rock com MPB (pois é, Los Hermanos não foram tão originais assim) e tratava de problemas sociais, como pode sugerir o título da música – “Alagados” é o nome de uma favela de Salvador, Bahia.
Taí a letra da música:
ALAGADOS
Todo dia
O sol da manhã vem e lhes desafia
Traz do sonho pro mundo quem já não queria
Palafitas, trapiches, farrapos
Filhos da mesma agonia
E a cidade
Que tem braços abertos num cartão-postal
Com os punhos fechados na vida real
Lhes nega oportunidades
Mostra a face dura do mal
Alagados, Trenchtown, Favela da Maré
A esperança não vem do mar
Nem das antenas de tevê
A arte de viver da fé
Só não se sabe fé em quê
Categorias: Música